| |
|
| Cabelo espetado António Torrado Cristina Malaquias | |
| | |
| Era uma vez uma senhora que estava no cabeleireiro, à espera de ser atendida.
- Estou pelos cabelos! - dizia a senhora, muito irritada. - Nunca mais chega a minha vez, francamente.
Uma das cabeleireiras passou por ela e reparou:
- Olhe que a senhora, assim, tão enervada que está, fica com os cabelos em pé. | |
| | |
| Depois, vai ser um sarilho para penteá-la.
E foi. Quando a senhora se sentou, finalmente, numa das cadeiras, frente ao espelho, estava uma lástima. Tinha o cabelo que nem escova de arame.
Lavaram-no, massajaram-no, puseram-lhe rolos, encharcaram-no com laca, mas não havia meio. | |
| | |
| O cabelo empinava, tão espetado e rijo como se a senhora tivesse apanhado um choque eléctrico.
- Tem de acalmar-se. Vá lá, sossegue - diziam-lhe as empregadas do cabeleireiro.
Mais lhe diziam, pior era. Tantas pessoas à volta dela e as outras clientes aos risinhos punham-na fula. E, já se vê, a cabeleira ouriçava-se-lhe ainda mais. Aquilo não havia remédio. | |
| | |
| - Só se voltar cá mais calma, noutro dia - propuseram-lhe.
- Como é que pode ser, se hoje é que eu tenho uma festa, a que não posso faltar, dê por onde der? - esganiçava-se a senhora de cabelos arrepiados, cada vez mais arrepiados.
Teve de ir assim mesmo à tal festa. Nervosíssima. Arrepiadíssima. E querem saber? | |
| | |
| Foi um êxito, o alvo de todas as atenções, de todos os elogios.
- Que penteado tão original! E que bem que lhe fica! Onde é que o fez? - perguntavam-lhe a torto e a direito.
A senhora punha a mão no coração, consolada e feliz. Acalmou. Vai daí o cabelo perdeu a electricidade e caiu-lhe em pontas desgraciosas, escorrido e feio como pêlo de cão à chuva. | |
| | |
| Copyright
© 2003 APENA, APDD Cofinanciado pelo POSI e pela Presidência do Conselho de Ministros |