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| Lanças e enxadas António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Uma lenda conta que havia, dantes, dois povos vizinhos e inimigos. Uns eram romanos, outros, sabinos. Por tudo e por nada levantavam os estandartes da guerra. Por tudo e por nada desbaratavam-se uns aos outros.
Nos dois territórios próximos, o número de órfãos e de viuvas aumentava, assustadoramente. | |
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| Não havia família que não estivesse de luto.
Nesse tempo, os guerreiros iam de peito feito para as batalhas. Não usavam capacetes nem couraças. A única protecção de que se serviam era um escudo redondo, como uma casca de tartaruga.
Com o escudo preso a um dos braços defendiam-se. | |
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| Com a lança brandida pelo outro braço atacavam. As lutas corpo a corpo eram terríveis. Ou morrer ou matar.
As mulheres de um e do outro campo andavam aterrorizadas.
- Quando terminar esta mortandade só estaremos nós, vestidas de negro, umas diante das outras, a chorar os nossos maridos - dizia uma delas, de nome Hersélia. | |
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| - Os nossos filhos não chegarão a conhecer os pais e não sobrará nenhum homem que lhes ensine as astúcias da caça, os gestos da sementeira, as regras do cultivo, o gosto do trabalho. Vamos recuar ao tempo em que estava tudo por aprender, os campos por lavrar, os animais por sujeitar. Vamos ser muito infelizes.
Isto dizia Hersélia. | |
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| As outras mulheres, sabinas ou romanas, concordavam. Elas juntavam-se à beira rio, cada qual na sua margem, para trocarem queixumes.
- Se lhes disséssemos para pararem a guerra? - lembrou uma delas, romana ou sabina, não interessa.
- Estão tão loucos que a nossa voz não consegue romper o delírio deles. | |
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| Não ouvem senão o entrechocar das armas e os gritos da cólera e do ódio - disse outra mulher, talvez sabina, talvez romana.
Então Hersélia lançou para o meio da assembleia de mulheres esta proposta:
- Se não queremos perder os nossos filhos e maridos, temos de nos armar com toda a nossa coragem. | |
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| Cobertas com os nossos mantos de luto, de cabelos caídos e com nossos filhos pequenos pela mão, corramos para o campo de batalha. Atiremos os nossos corpos indefesos para o centro da luta e, com uma única voz, gritemos, imploremos aos combatentes que larguem as armas.
Assim fizeram. | |
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| Um enxame de mulheres de negro, com crianças ao colo, lançou-se entre os contendores. Eram sabinas. Eram romanas. Eram mulheres desesperadas.
- Parai, parai de lutar - gritavam.
Gritavam e choravam e suplicavam. Eram muitas.
Caíram os braços que seguravam as lanças. Resvalavam dos braços os escudos. | |
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| Os maridos procuraram as mulheres. Os pais, os filhos.
Ainda se levantou uma voz de rudeza, a protestar contra aquela intromissão, tão fora dos hábitos da guerra:
- Não queremos mulheres aqui. Os combates têm de continuar.
Ninguém ligou. A tal voz agreste também não insistiu.
E fez-se a paz. | |
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