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| A cadeira musical António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Era uma cadeira que sabia música. Uma pessoa sentava-se nela e a cadeira começava a tocar.
- É uma cadeira caixinha de música. Tem molas especiais que fazem "clique", quando uma pessoa se senta na cadeira e, então, a caixinha de música começa a tocar - explicava quem sabia destes mecanismos de cadeiras musicais. | |
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| Talvez fosse, realmente, assim. O certo é que, um dia, a cadeira se avariou. Deixou de tocar música. Passou a ser uma cadeira banal, igual a milhões de outras que não tocam.
- Deve estar com as molas gastas - disse a velha e gorda senhora, dona da cadeira. - Vou mandar arranjá-la. | |
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| Mas na oficina das cadeiras desenganaram-na:
- Já não há quem arranje dessas cadeiras.
Voltou a cadeira para casa da senhora que, às vezes, com saudades de outros tempos, nela se sentava, evocando a musiquinha que a cadeira, dantes, tocava. | |
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| A velha e gorda senhora lembrava-se de quando era nova, leve e gentil e ia, às escondidas da avó, sentar-se na cadeira com música.
- Tlim, tlim, tlim e mais tlim - tocava a cadeira, à volta da menina.
Que saudades! | |
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| A senhora largou um imenso suspiro e foi atender à porta, porque a campainha repicara. Era uma amiga com o sobrinho, um miúdo tímido, escondido atrás da sombra da tia.
- Entrem para a sala - convidou a velha senhora.
Logo aconteceu que o menino se foi sentar na cadeira avariada. | |
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| E não é que ela, sem mais quê nem porquê, ao leve peso do garoto, começou a tocar?
O miúdo saltou, assustado, e a cadeira calou-se. Então, a velha senhora explicou o mecanismo da cadeira e tudo voltou ao certo.
Naquela tarde, a cadeira tocou que foi um regalo ouvir. | |
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