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| Sapatos de passeio António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Enquanto dormimos, os sapatos dão grandes passeios. Sobretudo os de andar por casa - chinelos, pantufas, sapatilhas e por aí fora.
Os sapatos dos velhinhos que, durante o dia, já só andam a arrastar, mal apanham os donos a dormir, saltam, dançam, saltaricam que é uma maravilha. Nem se acredita. | |
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| As botas dos que trabalham no campo escapam-se para a cidade. Os sapatos dos citadinos vão dar uma voltinha até ao campo mais próximo. E também há sandálias que gostam de passear-se sozinhas à beira mar, nas noites de Lua Cheia.
Mas isto está tudo muito bem combinado. | |
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| Assim que sentem que são horas de voltar, os sapatos, botas, botins, botifarras, chinelos e sapatões correm para junto das camas dos seus respectivos donos e aí ficam, muito quietinhos, à espera de serem calçados.
Agora eu vou contar a história de uns sapatos que se perderam. Eram uns sapatos de menino, ainda pouco habituado a andar. | |
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| Estava o menino mergulhado em pleno sono, quando os sapatos, pé ante pé, se decidiram a ir correr mundo. Para eles o mundo seria tudo o que ultrapassasse a sua pouca experiência de sapatos de quarto, de sala, de corredor e, quando muito, de jardim.
Assim que se viram sozinhos na rua desataram a correr. | |
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| Com o que não contavam era com um cão vadio que, ao vê-los tão soltos, tão ligeiros, abocanhou um deles e fugiu. O outro correu atrás do bicho pulguento, a exigir o seu par. O cão assustou-se e largou-o, sem se virar para trás.
Ficaram outra vez os dois sapatos lado a lado. Mas onde é que estavam? | |
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| Eles, que tinham pouca prática da vida, desorientaram-se. Era a primeira vez que vinham à rua e sentiram-se perdidos.
Andaram para um lado e para o outro, à procura da casa com jardim. A zona da cidade, aonde tinham vindo parar, só tinha prédios muito altos, com andares de escritórios. Ora, como se sabe, nos escritórios, à noite, não dorme ninguém. | |
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| Pode dormitar, de dia, um ou outro empregado, mas à secretária, sentado e calçado.
Os sapatinhos ainda pediram ajuda numa montra de sapataria. Sem resultado. Eram sapatos novos, recem-saídos da caixa, e não conheciam aquelas paragens.
O par de sapatos do menino fartaram-se de andar, a noite toda. | |
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| Já começava a nascer o sol, quando uma senhora que ia para o trabalho os viu. Pegou neles, mirou-os e remirou-os, apreciando a qualidade e pouco uso, e meteu-os no saco.
A senhora era empregada da limpeza de uma casa com jardim, logo por coincidência a casa onde morava o menino, dono dos sapatos. | |
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| Quando eles perceberam que estavam em território conhecido, saíram, muito sorrateiros, do saco da senhora mulher-a-dias e foram em bicos de pés para o quarto do menino, ainda a dormir a bom dormir.
A senhor fez as suas limpezas, aprontou os pequenos-almoços e abalou para outra casa de família, onde também trabalhava. | |
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| Quando, ao fim do dia, a senhora Deolinda regressou, muito fatigada, à sua própria casa e procurou no saco os sapatinhos que, de madrugada, tinha achado na rua, não os encontrou.
- Esquisito! Era capaz de garantir que os tinha guardado no saco. Ou terei sonhado? | |
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| Sonho da senhora Deolinda, sonho do menino, dono dos sapatos, ou sonho dos sapatos do menino, tanto faz. O que importa é que esta história acaba onde começou.
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