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| O fato azul - escuro António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Era uma vez um fato que gostava muito de ir à rua, mas o dono não lhe fazia a vontade.
Tratava-se de um fato azul escuro, mais ou menos de cerimónia e com muito pouco uso. O dono comprara-o para um casamento e, afora uma ou outra ocasião mais solene, nunca o tirava do guarda-vestidos ou do guarda-fato, ainda estou para saber ao certo como é que se diz. | |
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| Um dia, um amigo pediu-lho para uma solenidade qualquer, banquete em embaixada ou coisa assim. Estava um bocadinho fora de moda, mas no meio de outros fatos, igualmente azuis escuros, ninguém ia reparar. | |
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| Lá foi o fatinho todo contente apanhar ar. Pena que não houvesse mais oportunidades semelhantes, mas para o fato, que gostava do laréu, aquele sarau mundano já era uma distracção.
Logo por azar, pespegou-se uma grande nódoa no fato, das renitentes, das pertinazes, que nem com benzina saem. | |
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| O pesaroso amigo do dono do fato bem o levou à lavandaria (ao fato e não ao amigo, já se vê), mas a nódoa estava para durar e era de uma tão alastrada evidência que inutilizava o fato para todo o sempre.
Que fazer? Comprar um fato igual, era o mais recomendável. Mas onde arranjá-lo da mesma fazenda e com o mesmo corte? | |
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| O amigo do dono do fato, muito comprometido, foi retardando a devolução, a ponto de o deixar esquecido noutro guarda-vestidos (ou guarda-fato?), até ver.
Passado muito tempo, o dono do fato precisou dele, lembrou-se de que o tinha emprestado e pediu-o de volta. Embaraçado, o amigo teve de confessar tudo. | |
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| Uma tão longa amizade não podia ficar manchada por uma nódoa.
Os dois amigos combinaram comprar um fato a meias, que servisse para as ocasiões solenes a que um ou outro tivesse de ir por obrigação social, e decidiram desfazer-se do velho fato azul escuro. | |
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| Deixado intacto à beira de um contentor do lixo, o primeiro vagabundo que o viu levou-o. Serviu-lhe às mil maravilhas. Os fatos, quando dados, costumam quase sempre cair muito bem.
O fato, agora, anda nas suas setes quintas, maneira de dizer que está feliz da vida. Passeia habitualmente à noite, mas vai conhecendo a cidade de lés a lés. | |
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