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| A mania das colecções António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Tenho um vizinho que é coleccionador. De quê? De selos? De moedas? De caixas de fósforos? De garrafinhas de licor? De bilhetes-postais? De revistas antigas?
Nada disso. O meu vizinho do lado é coleccionador, mas de chapéus.
Lá em casa, logo à entrada, tem um bengaleiro, que é um museu de chapelaria. | |
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| Quem lhe não conhecer a mania e se ficar pela entrada, julgará que o senhor tem lá em casa, à conversa, no salão, uma quantidade de cavalheiros de todas as épocas... E se tivesse? Se tivesse, pelo que se calcula dos chapéus pendurados, a casa do meu vizinho seria um baile de máscaras permanente. | |
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| Se não reparem:
Um chapéu de plumas à mosqueteiro,
um fez à turca, que parece um vaso sem flores,
um chapéu de abat-jour, de um chinês de antigamente,
um chapéu alto, como usavam os nossos bisavós, quando não usavam chapéu de coco, | |
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| um chapéu de almirante, que parece um barco virado ao contrário,
um capacete com um bico no alto, a servir de pára-raios,
um chapéu de palha, a que qualquer burro competente chamaria um figo,
um barrete de campino, mais garrido que uma bandeira, | |
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| um tricórnio, de que nunca se sabe qual é o lado da frente,
um chapéu de explorador africano que, depois de pintado, já serviu a um polícia sinaleiro de antigamente
e muitos, muitos mais chapéus...
É uma pena que o meu vizinho do lado vá acabar com a colecção. E porquê? | |
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| Explicou-me ele:
- Estão aqui muitas viagens, muita despesa, muita aventura. São o meu orgulho, pode crer. Mas a verdade é que, agora, já me cansam. Vê-los assim, pendurados, sem préstimo, na sombra do bengaleiro, fazem-me impressão. Parece que os tirei a quem pertenciam. Enervam-me, tiram-me o sono. Quero ver-me livre deles.
- E como? - perguntei. | |
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| - Ponho um anúncio - explicou-me o coleccionador. - Cada pessoa que vier leva um chapéu de graça. Mas tem de prometer que não o tira da cabeça, até ao fim da rua.
- Quero estar cá, à janela, para ver isso ! - exclamei, entusiasmado.
Não calculam o espectáculo. Parecia um dia de Carnaval, como aqueles que já não há. Só visto. | |
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| - E agora? - perguntei eu ao meu vizinho do lado, quando passei lá por casa. - Está mais aliviado?
- Nem por isso - suspirou ele. - Sinto-me, de repente, mais pobre, mais desacompanhado. Parece-me que vou começar outra colecção.
- Outra vez de chapéus? - quis eu saber. | |
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| - Não, essa já deu o que tinha a dar. Vou pôr-me em campo para uma nova colecção, mas de sapatos.
- Novos? - intriguei-me.
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