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| A Panela ao Lume António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Uns saltimbancos tinham acampado num bosque.
Era um pobre casal com filhos ainda pequenos.
Fizeram uma fogueira, puseram uma panela de água em cima, com batatas e feijões, mas como a água não levantasse fervura para cozer a sopa, o homem foi procurar, ao redor, uns cavacos e umas pinhas, com que atiçasse mais o lume. | |
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| Ficou a mulher só com os pequenos, que dormiam.
Atraído pelo cheiro do cozinhado, apareceu um lobo.
Era inevitável. Nestas histórias, está-se sempre à espera que ele apareça...
A mulher, ao princípio, não deu pelo lobo, que, devagarinho, se aproximava dos meninos. | |
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| Quando ela o viu, susteve o grito e agarrou no panelão cheio de água e despejou-o em cima do lobo. A água não estava a ferver, mas pouco faltava.
O lobo fugiu, aos uivos. Serviu-lhe de emenda. | |
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| Por sinal que não serviu, porque, noutra ocasião, andava o saltimbanco sozinho, a colher amoras, para levar aos filhos, e apareceu o lobo, a cheirar-lhe os calcanhares.
O homem trepou a uma árvore, mas o lobo ainda lhe ficou com os fundilhos das calças nos dentes. De mal a menos. | |
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| O pior foi quando o lobo se pôs a chamar pelos outros da alcateia.
Vieram uns tantos. Como a árvore era das altas, os lobos colocaram-se em castelo, uns em cima dos outros. Quem os aguentava, em baixo, era o mais forte, o lobo que os chamara. | |
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| Ora o homem tinha reparado que a este lobo faltava pêlo nos lombos, como se estivessem a sarar de alguma queimadura. Isto lembrou-lhe o que a mulher lhe contara. Então gritou, num último alento de coragem:
- Ó Maria, traz a panela com a água ao lume. | |
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