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| Não é Camelo António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Ninguém gosta que o tratem por camelo.
- Seu camelo, não sabe parar nas zebras?
Não é conversa de savana nem de jardim zoológico, mas fala de peão furioso para automobilista desastroso, perigoso, criminoso, que não sabe abrandar nas passagens zebradas. | |
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| - Camelo é você, sua besta - dirá em resposta o vergonhoso automobilista, mas sem razão nenhuma.
De facto, ninguém gosta que o tratem por camelo. Principalmente o dromedário.
- Não sou camelo - enerva-se o dromedário. - Eu só tenho uma bossa. O camelo tem duas.
Mas há sempre quem faça confusão. | |
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| Para que não sobrassem dúvidas, o dromedário mandou espalhar um anúncio com os seguintes dizeres: camelo - 2, dromedário - 1. Ia resultar, ele tinha a certeza.
Quando os turistas, armados de máquinas fotográficas, desembarcassem e vissem um dromedário, não gritariam, todos excitados:
- Olha um camelo! | |
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| - Vai chamar camelo ao filho do teu paizinho, meu grande burro - diria o dromedário, entre dentes.
Com aqueles cartazes acabavam-se as confusões.
Não acabaram.
- Olha: os camelos ganharam aos dromedários por dois a um - diziam os turistas.
- Camelos! Camelos! Camelos! | |
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| - gritava, para dentro, o dromedário.
Até que resolveu mandar colar pelas paredes outro anúncio, com os seguintes dizeres: 1 dromedário + 1 dromedário = 1 camelo.
Percebia-se a intenção. Uma corcova mais uma corcova, igual a duas corcovas. Só os camelos é que não gostaram da comparação. Um camelo igual a dois dromedários? Que era lá isso? | |
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| Vieram, muito zangados, pedir explicações ao dromedário. Ou ele desistia do afrontoso cartaz ou havia guerra.
O dromedário, que era pacífico, mandou arrancar os cartazes. Vendo bem, os camelos tinham alguma razão.
- Olha um camelo - gritava um turista, apontando-lhe a máquina fotográfica. | |
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| - Pacífico seria, mas naquela altura, não aguentando mais, o dromedário deu um coice, que estatelou o turista. Depois, assustado com o que fizera, fugiu.
- O malandro do camelo ia-me matando - queixava-se o turista.
- Onde é que ele está? Para onde é que ele foi? - perguntou um polícia árabe, acorrendo. | |
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| - Naquele sentido - apontou o turista.
- Eu já o apanho, descanse - prometeu o polícia.
Pôs-se a correr e, pouco adiante, passou pelo dromedário, sem lhe ligar. O polícia árabe sabia distinguir um dromedário de um camelo.
- Viste um camelo a fugir, nesta direcção? - perguntou o polícia ao dromedário. | |
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| - Não reparei - disfarçou o dromedário. - Porquê?
- Porque parece que esse camelo deu um coice a um turista. Se eu o apanho... - ameaçou o polícia com o chanfalho, apressando o passo.
O dromedário viu-lhe os calcanhares e suspirou fundo. Pela primeira vez sentia que a confusão entre camelos e dromedários lhe tinha sido favorável. | |
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